sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ritos Corporais entre os Nacirema. MINER, Horace.








RITOS CORPORAIS ENTRE OS NACIREMA


Um bom antropólogo se sente familiarizado com a diversidade das culturas. No entanto, as crenças e práticas dos Nacirema são tão inusitadas que devemos apontá-los como um exemplo dos extremos a que o comportamento humano pode chegar.

É interessante conhecer alguns dos rituais dos Nacirema, povo até hoje não bem compreendido. Trata-se de um grupo que vive em um território que se situa entre os Cree do Canadá, os Yaqui e Tarahumare do México e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw deu origem a sua nação.

A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evoluiu em rico habitat natural. Apesar de o povo dedicar muito do seu tempo às atividades laborativas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são despedidas em atividades rituaisO foco destas atividades é o seu próprio corpo, cuja aparência e manutenção aparecem como o interesse dominante deste povo.

crença fundamental dos Nacirema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e para a doença.

Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é evitar estas tendências através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial.

Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos deste grupo cultural têm muitossantuários em suas casas, e, de fato, a alusão à riqueza de uma casa é feita em termos do número de tais centros rituais. Mesmo as moradias menos resistentes têm as câmaras de culto feitas das mais ricas paredes de pedra. Embora cada família, tenha pelo menos um dos tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias coletivas: são cerimônias privadas e secretas. Os ritos que ali acontecem são discutidos apenas com as crianças e durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios.

ponto central do santuário é uma caixa embutida na parede, onde são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem as quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Estes preparados são conseguidos através de uma série de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são alguns feiticeiros, cujo auxílio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os “médicos-feiticeiros” não fornecem diretamente aos seus clientes as poções de cura, eles apenas decidem quais devem ser seus componentes e então os grafam em uma linguagem que só é entendida pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dádiva, providenciam o encantamento necessário.

Os Nacirema não se desfazem das poções após seu uso, mas as colocam na caixa-de-encantamentos do santuário. Como estas substâncias mágicas são específicas para cada mal e os males do povo – reais ou imaginários – são muitos, a caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais suas finalidades e temem usa-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que o que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a idéia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente a qual são efetuados ritos corporais, irá de alguma forma proteger o crente.
Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa de encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução. As águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.

Na hierarquia da feitiçaria, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os “sagrados homens-da-boca”. Os Nacirema tem um horror quase patológico, e ao mesmo tempo uma fascinação, com relação à cavidade bucal, cujo estado acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais, seus dentes cairiam, suas gengivas sangrariam, suas mandíbulas se contrairiam, seus amigos os abandonariam e seus parceiros os rejeitariam.

Estes feiticeiros têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de furadores, sondas e agulhas. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve para o paciente uma tortura ritual quase inacreditável. O sacerdote-da-boca produz cavidades onde são colocadas substâncias mágicas. O propósito destas aplicações é tolher a degeneração e manter amigos.

Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, o latipsoh, em cada tribo. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o milagreiro, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas específicas, movimentam-se serenamente pelas câmaras do templo.

Os cerimoniais no latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Apesar disto, adultos doentes não apenas querem, mas anseiam por sofrer dos prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou qual seja a emergência, os guardiões de muitos dos templos não admitirão um nativo se ele não puder dar uma dádiva valiosa. O suplicante que entra no Templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Ora, na vida cotidiana, o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados sempre em segredo. Da perda do segredo do corpo logo na entrada no latipsoh, resultam traumas psicológicos profundos. Um homem, cuja própria companheira nunca o viu no ato de excretar, acha-se subitamente nu a auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais em um recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excrementos são utilizados por um adivinho para averiguar a natureza da enfermidade do cliente. Os suplicantes têm seus corpos nas submetidos ao escrutínio e aguilhoadas constantes.

As cerimônias diárias envolvem desconforto e tortura. As vestais inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas. De tempos em tempos, o médico vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam matar o neófito, não diminui de forma alguma a fé das pessoas nos médicos-feiticeiros.
Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um “ouvinte”. Este bruxo tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos, particularmente teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-mágica do bruxo é especial por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao “ouvinte” todos seus problemas e temores, desde suas dificuldades iniciais. A memória demonstrada pelos Nacirema nessas sessões de exorcismo é notável.

Há um ritual típico que é desempenhado apenas por homens. Trata-se de laceramento da superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em renúncia é compensado em barbaridade. Como parte destas cerimônias, mulheres introduzem suas cabeças em pequenos fornos por cerca de meia hora.

Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão ao corpo no seu estado natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos, e torná-los menores quando são grandes.

Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser esse povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo.

MINER, Horace. “Ritos Corporais entre os Nacirema” In: ROMMER et al.
You and Others: Readings in Introductory Anthropology. Cambridge,
Winthroop Publishers, 1973.

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